Minha Identidade Negra

Minha identidade, é Negra e a descobri assim como a maioria de negras e negros, sendo seguido por segurança nos supermercados, shoppings ou lojas, me disseram que era mania de perseguição, quando diziam que nosso cabelo era ruim e por isso tínhamos que cortar bem curtinho ou alisar. Com isso minha auto-estima era muito baixa, sempre achei que os outros eram melhores, mesmo quando eu o era alvo de elogios.

O tempo passou, e como não sou bobo nem nada, cresci, amadureci e me dei conta de que o problema está nas pessoas que oprimem e não em mim, compreendi que tudo o que faço é tão incrível quanto qualquer outro.

A minha identidade só teve sentido após uma pesquisa na internet sobre o Quilombo da Anastácia, que até então era somente um sítio simples onde moram alguns parentes, no entanto descobri um local histórico.

Nascida em 1896, Anastácia era uma sábia mulher, lembrada por ser forte e guerreira, sempre de pés descalços  ia pra roça todos os dias para cuidar de suas plantações e também dos animais herdados de seus avós. Todos seus filhos nasceram em casa, ela mesma sentava e cortava o cordão umbilical e o entregava ao marido, e às vezes à vizinha, para lavar e guardar. Era uma mulher a frente do seu tempo, tendo em vista os costumes da época, contrariou a sociedade e casou-se com aos 32 anos, o marido vendia sem qualquer controle os animais e terras herdados por Anastácia. Há relato de que ela não deixou por assim, brigou muito com o marido em defesa das suas terras e animais. Criou seus filhos e netos nestas terras e com muita força manteve viva sua origem e cultura. Em 2016 a localidade foi reconhecida como Território Quilombola pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária,  sendo assim batizada pela comunidade Quilombo da Anastácia. 

Essa história foi importante para construir minha identidade, minha cultura, para me fortalecer e entender que a sociedade acha que sabe o que é melhor para nós, no entanto somente eu decido o que fazer, o que sentir.

Na atual realidade de nosso país, é muito importante zelarmos pela memória de nossos ancestrais, e transmitir as histórias para as novas gerações, para que construam suas identidades também. Em tempos que querem acabar com tudo o que conquistamos até agora, é nossa missão cuidar da memória Quilombola, não deixar cair no esquecimento as histórias, cultura e tradições.

Resistir para Existir!

Por Jhonatan Gomes

Quilombola, Artista, Produtor Cultural e Graduando em Produção Cênica .

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